O rechupe (ou sink mark) é um dos defeitos mais frustrantes na injeção de termoplásticos. Aparece como uma depressão na superfície da peça, normalmente numa zona com espessura de parede elevada, nervura ou ponto de ligação. Não é um problema de molde: é quase sempre um problema de processo.
Este guia explica as causas reais do rechupe, como diagnosticá-lo corretamente e quais os parâmetros que deve ajustar, com valores concretos, não respostas genéricas.
O que é o rechupe e por que acontece?
O rechupe forma-se quando o material no exterior da peça solidifica mais rapidamente do que o material no interior. O núcleo quente continua a contrair depois do exterior já ter arrefecido, "puxando" a superfície para dentro.
É especialmente comum em:
- Zonas com nervuras altas (a base da nervura tem mais massa do que a parede adjacente)
- Partes com parede variável (a zona mais espessa contrai mais)
- Zonas junto ao ponto de injeção quando o recalque é insuficiente
- Materiais com contração elevada como PP, PE e POM
Regra fundamental: O rechupe indica que o material solidificou sem compensação suficiente da contração volumétrica. A solução está quase sempre no recalque, não na temperatura do molde.
Diagnóstico: identificar a causa raiz
Antes de mexer nos parâmetros, é essencial perceber onde está o rechupe e quando aparece. Isso determina a causa e a solução:
Rechupe junto ao ponto de injeção
Se o rechupe está perto do gito, o ponto de injeção solidifica cedo demais e impede a compensação pelo recalque. Causa provável: temperatura de bico baixa ou tempo de recalque insuficiente.
Rechupe na base de nervuras
A nervura tem mais massa que a parede. O material solidifica por fora mas o interior ainda está quente. Causa provável: pressão de recalque insuficiente ou espessura de nervura excessiva (deve ser 50-60% da parede adjacente).
Rechupe em zonas distantes do ponto de injeção
O recalque não chega a zonas afastadas porque o canal solidificou antes de transmitir a pressão. Causa provável: pressão de recalque baixa ou trajeto de fluxo demasiado longo para a pressão usada.
Os parâmetros a ajustar, com valores
| Parâmetro | Ajuste recomendado | Efeito esperado |
|---|---|---|
| Pressão de recalque | Aumentar 10–20% (tipicamente 60–80% da pressão de injeção) | Compensa a contração volumétrica durante o arrefecimento |
| Tempo de recalque | Aumentar até o ponto de injeção solidificar (teste de gate freeze) | Garante que a pressão é transmitida durante toda a contração |
| Temperatura do bico | Aumentar 5–10 °C (evitar solidificação prematura do bico) | Mantém o canal de transmissão de pressão aberto mais tempo |
| Temperatura do molde | Reduzir 5–10 °C na zona afetada | Acelera solidificação exterior, reduz tempo de contração interna |
| Temperatura de fusão | Reduzir 5–10 °C (material menos quente contrai menos) | Reduz contração volumétrica total. Cuidado com o preenchimento |
O teste de gate freeze: como fazer
O gate freeze test é o método mais fiável para determinar o tempo de recalque ideal. É simples:
- Defina o tempo de recalque inicial (ex: 5 segundos)
- Pese as peças produzidas
- Aumente o tempo de recalque em 1 segundo e pese novamente
- Repita até o peso se estabilizar. Esse é o ponto de gate freeze
- Adicione 0,5–1 segundo de margem de segurança
Quando o peso deixa de aumentar com mais tempo de recalque, o ponto de injeção solidificou. Qualquer tempo adicional é desperdício de ciclo.
Rechupe vs. vazio interno: como distinguir
Nem sempre o problema é superficial. Por vezes o rechupe exterior é substituído por um vazio interno: uma bolha de vácuo dentro da peça. Isso acontece quando a superfície é rígida suficiente para resistir à contração mas o interior colapsa para dentro.
Para confirmar: corte a peça na zona suspeita. Se houver uma cavidade interna, o problema é o mesmo (recalque insuficiente), mas a solução prioriza reduzir a temperatura de fusão e aumentar a pressão de recalque, em vez de mexer na temperatura do molde.
Considerações por material
| Material | Contração típica | Risco de rechupe | Nota |
|---|---|---|---|
| PP (Polipropileno) | 1,0–2,5% | Alto | Contração elevada e anisotrópica: nervuras problemáticas |
| PE (Polietileno) | 1,5–3,5% | Muito alto | Material cristalino com contração muito elevada |
| ABS | 0,4–0,7% | Baixo-médio | Contração baixa: rechupe menos frequente |
| PC (Policarbonato) | 0,5–0,7% | Baixo | Baixa contração mas sensível a tensões internas |
| PA6 (Nylon) | 0,8–1,5% | Médio-alto | Higroscópico: secar bem antes de injetar |
| POM (Acetal) | 1,8–2,5% | Alto | Contração alta: recalque crítico |
Soluções de molde: quando o processo não chega
Em alguns casos, mesmo otimizando todos os parâmetros de processo, o rechupe persiste porque o problema está no design do molde ou da peça:
- Espessura de nervura excessiva: reduzir para 50–60% da espessura da parede adjacente
- Ponto de injeção subdimensionado: aumentar secção do gito para transmitir melhor a pressão
- Refrigeração assimétrica: melhorar arrefecimento nas zonas de maior massa
- Trajeto de fluxo demasiado longo: considerar ponto de injeção adicional ou câmara quente
Regra de ouro para nervuras: Espessura da nervura = 50–60% da parede adjacente. Altura máxima = 3× a espessura da parede. Raio na base = mínimo 0,5 mm. Estas proporções reduzem drasticamente o risco de rechupe na base da nervura.
Sequência de correção recomendada
- Confirmar localização e padrão do rechupe (junto ao gito vs. distante, nervura vs. parede)
- Fazer o teste de gate freeze para determinar o tempo de recalque correto
- Aumentar pressão de recalque em incrementos de 5–10 bar
- Se persistir: ajustar temperatura de bico (+5 °C)
- Se persistir: reduzir temperatura de fusão (–5–10 °C) e verificar preenchimento
- Se persistir após otimização de processo: avaliar solução de molde
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